Leituras da Bússola · Eleições 2026

Como as favelas votaram para presidente

Nas mesmas urnas, entre o 1º turno de 2022 e o de 2026, o voto dentro de favelas e comunidades urbanas mudou menos do que no país. Mas não mudou do mesmo jeito em todo lugar.

6 de outubro de 2026 · leitura de 8 minutos

Em 2024, o IBGE passou a chamar de favelas e comunidades urbanas o que antes chamava de "aglomerados subnormais", e publicou, pelo Censo de 2022, o polígono de cada uma delas: 12.348 áreas, onde vivem 16,4 milhões de pessoas. Com esse mapa e com os locais de votação do TSE, que têm coordenadas, dá para fazer uma pergunta simples: como votaram para presidente as urnas que ficam dentro dessas áreas, em 2022 e em 2026?

Para responder, comparamos as mesmas urnas nos dois anos: 1.197 locais de votação situados dentro de favelas e comunidades em 26 estados, que existiam nas duas eleições, com 3,0 milhões de votos válidos em cada uma. Para 2026, lemos o boletim de cada uma das 13.326 urnas no site do TSE; para 2022, usamos a votação por seção dos dados abertos. É 1º turno contra 1º turno, e só votos válidos.

Gráfico de barras comparando 2022 e 2026 no 1º turno. Nas urnas dentro de favelas e comunidades, o PT vai de 52,3% para 50,2% e o PL de 39,6% para 42,0%. No Brasil, o PT vai de 48,4% para 45,2% e o PL de 43,2% para 47,0%.
Votos válidos para presidente no 1º turno, nas mesmas 1.197 urnas dentro de favelas e comunidades urbanas, e no Brasil.

O que o dado mostra

Nas urnas dentro de favelas e comunidades, o PT foi de 52,3% para 50,2% dos votos válidos (−2,1 pontos) e o PL de 39,6% para 42,0% (+2,4). No Brasil inteiro, o PT foi de 48,4% para 45,2% (−3,3) e o PL de 43,2% para 47,0% (+3,8). Ou seja, o movimento existiu nos dois lugares e na mesma direção, mas foi menor dentro das comunidades. A distância entre o voto das comunidades e a média nacional, a favor do PT, passou de 3,9 para 5,0 pontos.

Esse número nacional esconde duas coisas. A primeira é que favela e comunidade não votam de um jeito só. Nas urnas em comunidades de Manaus, o PL teve 53% em 2026 (e 52% em 2022); no Sol Nascente, no Distrito Federal, 51% nos dois anos; em Rio Branco, 65%. Em Salvador, o PT teve 70%; em Teresina, 67%; em São Luís, 59%; em Fortaleza, 57%. A geografia do voto dentro das comunidades acompanha, em boa parte, a geografia do voto de cada região.

Lista do candidato mais votado nas urnas em favelas e comunidades em 2026: PL em Rio Branco (65%), Manaus (53%) e Sol Nascente (51%); PT em Belém (50%), Fortaleza (57%), São Luís (59%), Teresina (67%) e Salvador (70%).
Candidato mais votado nas urnas dentro de favelas e comunidades, 1º turno de 2026, por cidade.

A segunda é que nas metrópoles do Sul e do Sudeste as comunidades mudaram mais do que a cidade. Em São Paulo, o PT caiu 4,1 pontos nas urnas em comunidades e 1,0 ponto na cidade inteira. Em Porto Alegre, 5,2 e 1,3. Em Belo Horizonte, 3,5 e 1,1. No Rio de Janeiro, caiu 3,2 nas comunidades enquanto subia 0,4 na cidade. No Nordeste e no Norte, o quadro é outro: em Belém e em Recife, o PT subiu tanto nas comunidades quanto na cidade; em Manaus, ficou praticamente onde estava.

Gráfico de barras horizontais com a variação do PT de 2022 para 2026 em dez cidades, comparando urnas em favelas e comunidades com a cidade inteira. São Paulo: −4,1 nas comunidades e −1,0 na cidade; Porto Alegre: −5,2 e −1,3; Belo Horizonte: −3,5 e −1,1; Rio de Janeiro: −3,2 e +0,4; Teresina: −3,4 e −1,2; Natal: −2,8 e −1,2; Salvador: −2,0 e −1,7; Manaus: −0,5 e +0,1; Recife: +0,6 e +1,3; Belém: +1,7 e +2,3.
Variação do PT entre o 1º turno de 2022 e o de 2026, em pontos percentuais dos votos válidos: urnas dentro de favelas e comunidades e município inteiro.
CidadePT comunidades 22→26PT cidade 22→26PL comunidades 22→26PL cidade 22→26Locais
Manaus38,6 → 38,137,0 → 37,152,5 → 53,453,6 → 54,379
Belém48,3 → 50,045,7 → 48,040,9 → 41,743,2 → 43,779
Salvador71,8 → 69,867,0 → 65,320,2 → 23,024,1 → 27,065
São Luís62,3 → 58,956,5 → 54,529,9 → 32,834,4 → 37,048
São Paulo60,7 → 56,647,5 → 46,628,8 → 33,738,0 → 42,140
Fortaleza57,2 → 56,753,2 → 53,532,4 → 36,735,2 → 39,339
Recife55,4 → 56,054,0 → 55,339,2 → 38,139,2 → 38,437
Rio de Janeiro55,3 → 52,143,5 → 43,937,4 → 39,947,0 → 47,923
Teresina70,4 → 67,062,4 → 61,222,6 → 26,328,6 → 31,522
Natal57,6 → 54,850,1 → 49,035,6 → 38,942,0 → 44,221
Brasília38,5 → 38,436,9 → 38,151,6 → 51,751,7 → 51,318
Belo Horizonte49,7 → 46,242,5 → 41,441,8 → 44,846,6 → 48,312
Porto Alegre62,0 → 56,849,8 → 48,631,0 → 35,439,1 → 41,912

Percentuais dos votos válidos no 1º turno. "Comunidades" = urnas em locais de votação dentro de favelas e comunidades urbanas do IBGE presentes nos dois anos; "cidade" = município inteiro.

Em comunidades conhecidas

Na Rocinha (o polígono que o IBGE chama de "Matinha", na região administrativa da Rocinha), o PT foi de 65% para 62% e o PL de 27% para 31%. No Vidigal, de 64% para 62% e de 28% para 30%. Em Rio das Pedras, de 57% para 51% e de 37% para 41%. Em Paraisópolis, de 66% para 62% e de 24% para 28%; em Heliópolis, de 63% para 57% e de 28% para 34%. No Coroadinho, em São Luís, de 63% para 60% e de 29% para 32%. No Pirambu, em Fortaleza, o PT ficou em 61% e o PL foi de 29% para 32%. No Sol Nascente, no DF, PT de 38% para 39% e PL de 52% para 51%. Em Santa Etelvina, em Manaus, PT de 39% para 38% e PL de 53% para 53%.

Tabela com PT e PL em dez comunidades conhecidas, 2022 e 2026: Rocinha, Vidigal, Rio das Pedras, Paraisópolis, Heliópolis, Coroadinho, Pirambu, Beiru/Tancredo Neves, Sol Nascente e Santa Etelvina.
PT e PL nas urnas de dez comunidades, 1º turno, votos válidos. Paraisópolis e Heliópolis: locais de votação a até 150 metros da borda do polígono, porque não há local dentro dele.

Como chegamos a ele

Pegamos o cadastro de locais de votação do TSE, que traz latitude e longitude de cada escola ou prédio onde se vota, e verificamos quais pontos caem dentro de um dos 12.348 polígonos de favelas e comunidades urbanas do IBGE. Para treze comunidades conhecidas que não têm nenhum local de votação dentro do polígono (Paraisópolis, Heliópolis, Vidigal, Alemão e Nordeste de Amaralina, entre outras), aceitamos locais a até 150 metros da borda. Em 2026 isso dá 13.326 seções eleitorais; lemos o boletim de urna de cada uma no site de resultados do TSE e somamos os votos para presidente. Em 2022, somamos as mesmas seções a partir do arquivo "votação por seção" dos dados abertos. Depois ficamos só com os locais de votação que existem nos dois anos: 1.197 locais, em 937 comunidades. Os totais das cidades vêm dos mesmos arquivos do TSE. A tabela por comunidade está aberta em favelas-voto-presidente-2022-2026.csv, e o método geral da Bússola, na página Sobre.

O que o dado não mostra

Quem vota num local dentro de uma comunidade não necessariamente mora nela, e muitos moradores votam em escolas fora dela: o recorte é das urnas, não das pessoas. Comunidades sem local de votação interno ficam de fora, e isso pesa no Rio de Janeiro: Maré, Alemão (fora do polígono de Nova Brasília) e Jacarezinho, por exemplo, não entram, e por isso a cidade aparece com só 23 locais. O IBGE define favela e comunidade por critério urbanístico, que nem sempre coincide com o nome que a cidade usa. É 1º turno contra 1º turno, só votos válidos, sem brancos, nulos e abstenção. E dois pontos percentuais numa urna de 300 eleitores são seis votos: nas comunidades pequenas da tabela, a variação é pouco informativa; o que sustenta a leitura é o conjunto.

Leituras possíveis

Os números admitem mais de uma explicação, e a conclusão é do leitor. Uma leitura é que o voto nas comunidades é mais estável do que o do país, e que programas e serviços públicos pesam mais nessa decisão do que o clima de cada eleição; isso explicaria por que a mudança foi menor, e por que foi menor justamente onde o PT já era forte. Outra leitura é que a média nacional esconde uma divisão regional: nas comunidades do Norte e do Nordeste o voto quase não se moveu ou se moveu a favor do PT, enquanto nas do Sul e do Sudeste o PT perdeu mais do que nas cidades em volta, o que indicaria que, nessas metrópoles, as comunidades se aproximaram do padrão da cidade, e não o contrário. Uma terceira é que parte do que aparece como mudança é troca de público: em quatro anos, locais de votação ganham e perdem eleitores, e o eleitor de 2026 não é exatamente o de 2022, mesmo na mesma urna. As três leituras podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, em proporções diferentes em cada lugar.

Para você

Esse é o voto para presidente. A Bússola existe para o outro voto, o que quase ninguém olha: o deputado. Em 4 de outubro, 513 deputados federais foram eleitos, e a partir de fevereiro mostraremos como cada um vota no plenário.

Onde você está nesse mapa? São 48 afirmações, cerca de 8 minutos, sem cadastro. No fim, você vê os eleitos mais próximos de você e em que bancada da Câmara estaria se fosse deputado.

Fazer o testeSeguir @bussoladovoto.br

Fontes

Publicado em 6 de outubro de 2026. Texto produzido com auxílio de IA, revisado e aprovado por George A. Alvares, que responde pelo conteúdo. Encontrou um erro ou quer exercer o direito de resposta? Escreva para [email protected].