Nas mesmas urnas, entre o 1º turno de 2022 e o de 2026, o voto dentro de favelas e comunidades urbanas mudou menos do que no país. Mas não mudou do mesmo jeito em todo lugar.
Em 2024, o IBGE passou a chamar de favelas e comunidades urbanas o que antes chamava de "aglomerados subnormais", e publicou, pelo Censo de 2022, o polígono de cada uma delas: 12.348 áreas, onde vivem 16,4 milhões de pessoas. Com esse mapa e com os locais de votação do TSE, que têm coordenadas, dá para fazer uma pergunta simples: como votaram para presidente as urnas que ficam dentro dessas áreas, em 2022 e em 2026?
Para responder, comparamos as mesmas urnas nos dois anos: 1.197 locais de votação situados dentro de favelas e comunidades em 26 estados, que existiam nas duas eleições, com 3,0 milhões de votos válidos em cada uma. Para 2026, lemos o boletim de cada uma das 13.326 urnas no site do TSE; para 2022, usamos a votação por seção dos dados abertos. É 1º turno contra 1º turno, e só votos válidos.
Nas urnas dentro de favelas e comunidades, o PT foi de 52,3% para 50,2% dos votos válidos (−2,1 pontos) e o PL de 39,6% para 42,0% (+2,4). No Brasil inteiro, o PT foi de 48,4% para 45,2% (−3,3) e o PL de 43,2% para 47,0% (+3,8). Ou seja, o movimento existiu nos dois lugares e na mesma direção, mas foi menor dentro das comunidades. A distância entre o voto das comunidades e a média nacional, a favor do PT, passou de 3,9 para 5,0 pontos.
Esse número nacional esconde duas coisas. A primeira é que favela e comunidade não votam de um jeito só. Nas urnas em comunidades de Manaus, o PL teve 53% em 2026 (e 52% em 2022); no Sol Nascente, no Distrito Federal, 51% nos dois anos; em Rio Branco, 65%. Em Salvador, o PT teve 70%; em Teresina, 67%; em São Luís, 59%; em Fortaleza, 57%. A geografia do voto dentro das comunidades acompanha, em boa parte, a geografia do voto de cada região.
A segunda é que nas metrópoles do Sul e do Sudeste as comunidades mudaram mais do que a cidade. Em São Paulo, o PT caiu 4,1 pontos nas urnas em comunidades e 1,0 ponto na cidade inteira. Em Porto Alegre, 5,2 e 1,3. Em Belo Horizonte, 3,5 e 1,1. No Rio de Janeiro, caiu 3,2 nas comunidades enquanto subia 0,4 na cidade. No Nordeste e no Norte, o quadro é outro: em Belém e em Recife, o PT subiu tanto nas comunidades quanto na cidade; em Manaus, ficou praticamente onde estava.
| Cidade | PT comunidades 22→26 | PT cidade 22→26 | PL comunidades 22→26 | PL cidade 22→26 | Locais |
|---|---|---|---|---|---|
| Manaus | 38,6 → 38,1 | 37,0 → 37,1 | 52,5 → 53,4 | 53,6 → 54,3 | 79 |
| Belém | 48,3 → 50,0 | 45,7 → 48,0 | 40,9 → 41,7 | 43,2 → 43,7 | 79 |
| Salvador | 71,8 → 69,8 | 67,0 → 65,3 | 20,2 → 23,0 | 24,1 → 27,0 | 65 |
| São Luís | 62,3 → 58,9 | 56,5 → 54,5 | 29,9 → 32,8 | 34,4 → 37,0 | 48 |
| São Paulo | 60,7 → 56,6 | 47,5 → 46,6 | 28,8 → 33,7 | 38,0 → 42,1 | 40 |
| Fortaleza | 57,2 → 56,7 | 53,2 → 53,5 | 32,4 → 36,7 | 35,2 → 39,3 | 39 |
| Recife | 55,4 → 56,0 | 54,0 → 55,3 | 39,2 → 38,1 | 39,2 → 38,4 | 37 |
| Rio de Janeiro | 55,3 → 52,1 | 43,5 → 43,9 | 37,4 → 39,9 | 47,0 → 47,9 | 23 |
| Teresina | 70,4 → 67,0 | 62,4 → 61,2 | 22,6 → 26,3 | 28,6 → 31,5 | 22 |
| Natal | 57,6 → 54,8 | 50,1 → 49,0 | 35,6 → 38,9 | 42,0 → 44,2 | 21 |
| Brasília | 38,5 → 38,4 | 36,9 → 38,1 | 51,6 → 51,7 | 51,7 → 51,3 | 18 |
| Belo Horizonte | 49,7 → 46,2 | 42,5 → 41,4 | 41,8 → 44,8 | 46,6 → 48,3 | 12 |
| Porto Alegre | 62,0 → 56,8 | 49,8 → 48,6 | 31,0 → 35,4 | 39,1 → 41,9 | 12 |
Percentuais dos votos válidos no 1º turno. "Comunidades" = urnas em locais de votação dentro de favelas e comunidades urbanas do IBGE presentes nos dois anos; "cidade" = município inteiro.
Na Rocinha (o polígono que o IBGE chama de "Matinha", na região administrativa da Rocinha), o PT foi de 65% para 62% e o PL de 27% para 31%. No Vidigal, de 64% para 62% e de 28% para 30%. Em Rio das Pedras, de 57% para 51% e de 37% para 41%. Em Paraisópolis, de 66% para 62% e de 24% para 28%; em Heliópolis, de 63% para 57% e de 28% para 34%. No Coroadinho, em São Luís, de 63% para 60% e de 29% para 32%. No Pirambu, em Fortaleza, o PT ficou em 61% e o PL foi de 29% para 32%. No Sol Nascente, no DF, PT de 38% para 39% e PL de 52% para 51%. Em Santa Etelvina, em Manaus, PT de 39% para 38% e PL de 53% para 53%.
Pegamos o cadastro de locais de votação do TSE, que traz latitude e longitude de cada escola ou prédio onde se vota, e verificamos quais pontos caem dentro de um dos 12.348 polígonos de favelas e comunidades urbanas do IBGE. Para treze comunidades conhecidas que não têm nenhum local de votação dentro do polígono (Paraisópolis, Heliópolis, Vidigal, Alemão e Nordeste de Amaralina, entre outras), aceitamos locais a até 150 metros da borda. Em 2026 isso dá 13.326 seções eleitorais; lemos o boletim de urna de cada uma no site de resultados do TSE e somamos os votos para presidente. Em 2022, somamos as mesmas seções a partir do arquivo "votação por seção" dos dados abertos. Depois ficamos só com os locais de votação que existem nos dois anos: 1.197 locais, em 937 comunidades. Os totais das cidades vêm dos mesmos arquivos do TSE. A tabela por comunidade está aberta em favelas-voto-presidente-2022-2026.csv, e o método geral da Bússola, na página Sobre.
Quem vota num local dentro de uma comunidade não necessariamente mora nela, e muitos moradores votam em escolas fora dela: o recorte é das urnas, não das pessoas. Comunidades sem local de votação interno ficam de fora, e isso pesa no Rio de Janeiro: Maré, Alemão (fora do polígono de Nova Brasília) e Jacarezinho, por exemplo, não entram, e por isso a cidade aparece com só 23 locais. O IBGE define favela e comunidade por critério urbanístico, que nem sempre coincide com o nome que a cidade usa. É 1º turno contra 1º turno, só votos válidos, sem brancos, nulos e abstenção. E dois pontos percentuais numa urna de 300 eleitores são seis votos: nas comunidades pequenas da tabela, a variação é pouco informativa; o que sustenta a leitura é o conjunto.
Os números admitem mais de uma explicação, e a conclusão é do leitor. Uma leitura é que o voto nas comunidades é mais estável do que o do país, e que programas e serviços públicos pesam mais nessa decisão do que o clima de cada eleição; isso explicaria por que a mudança foi menor, e por que foi menor justamente onde o PT já era forte. Outra leitura é que a média nacional esconde uma divisão regional: nas comunidades do Norte e do Nordeste o voto quase não se moveu ou se moveu a favor do PT, enquanto nas do Sul e do Sudeste o PT perdeu mais do que nas cidades em volta, o que indicaria que, nessas metrópoles, as comunidades se aproximaram do padrão da cidade, e não o contrário. Uma terceira é que parte do que aparece como mudança é troca de público: em quatro anos, locais de votação ganham e perdem eleitores, e o eleitor de 2026 não é exatamente o de 2022, mesmo na mesma urna. As três leituras podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, em proporções diferentes em cada lugar.
Esse é o voto para presidente. A Bússola existe para o outro voto, o que quase ninguém olha: o deputado. Em 4 de outubro, 513 deputados federais foram eleitos, e a partir de fevereiro mostraremos como cada um vota no plenário.
Onde você está nesse mapa? São 48 afirmações, cerca de 8 minutos, sem cadastro. No fim, você vê os eleitos mais próximos de você e em que bancada da Câmara estaria se fosse deputado.
Fazer o testeSeguir @bussoladovoto.brPublicado em 6 de outubro de 2026. Texto produzido com auxílio de IA, revisado e aprovado por George A. Alvares, que responde pelo conteúdo. Encontrou um erro ou quer exercer o direito de resposta? Escreva para [email protected].